sexta-feira, 13 de março de 2009

Clarice Lispector



A maior escritora brasileira de todos os tempos. A mais aclamada, a mais descaradamente elogiada por todos os grandes da literatura, a única considerada aqui no Brasil como mito em vida. Por que será que existia isso em torno de Clarice? O que existe de especial em sua obra? Lendo alguns de seus textos não fica difícil entender. É uma escrita VERDADEIRA (assim mesmo, com todas as letras maiúsculas), mas verdadeira não no sentido de ser a “verdade” incontestável (Clarice acho que nem acreditava nesse bicho), mas sim num sentido de escrever a sua verdade. Uma escrita visceral, mas nem um pouco piegas ou profunda a ponto de ser incompreensível: Algo direto, evidente e sem rodeios, ainda que muitas vezes lembrem diálogos de foro íntimo transcritos em sua totalidade. Um estilo único, nem rebelde e nem sofisticado demais. Simples, tocante e incontestavelmente linda, assim é a obra de Clarice, que choca na simplicidade, que toca com sua honestidade, que é linda porque algo escrito com tanta sinceridade não poderia ser de outro jeito.



Escrever astrologicamente sobre Clarice Lispector, entretanto, configura-se num sério problema. “Sou tão misteriosa que não me entendo”, dizia Clarice sobre si mesa. E de certa forma a vida dela é meio isso, algo meio insondável. A escritora apesar de compartilhar tanto da sua intimidade na forma da arte escrita ficcional, era absolutamente criteriosa ao referir-se a si mesma. Nunca quis fazer autobiografias, apesar de alguns autores já terem escrito muito sobre ela. Mas a verdadeira verdade sobre si mesma, dita por sua própria boca, se ela disse, o disse para alguém que sabe muito bem como guardar segredos. Em dado momento da sua vida começou a apresentar diversas datas de nascimento diferentes em diferentes pronunciamentos. Mesmo em documentos oficiais existe uma séria confusão! Em alguns consta que ela nasceu em outubro, em outros, novembro, mas os que aparecem com maior freqüência datam seu nascimento como sendo em 10 de dezembro de 1920. Cruel incerteza...

Mas Clarice tinha interesse por ocultismo, incluindo aí interesse por astrologia. Por exemplo, no livro “A via Crucis do corpo”, no conto “Dia após dia” ela diz sobre si mesma (num raro espasmo de auto-revelação): “Mas sou sagitário com escorpião, tendo como ascendente aquarius. E sou rancorosa. Um dia um casal me convidou para almoçar no domingo e no sábado de tarde, assim à última hora, me avisaram que o almoço não podia ser porque tinham que almoçar com um homem estrangeiro muito importante. Por que não me convidaram também? Por que me deixaram sozinha no domingo? Então me vinguei. Não sou boazinha. Não os procurei mais. E não aceitarei mais convites deles. Pão pão, queijo queijo”. Depois entrarei em mais detalhes sobre o possível e totalmente improvável, mas ainda assim descrito teimosamente por mim, mapa de Clarice, a misteriosa. Clarice gostava de horóscopo, tarô, i ching e jamais fez segredo disso pra ninguém. E 1975 ou 1976 (não estou certo) ela até participou de um congresso sobre bruxaria, onde leu seu desconcertante “O ovo e a Galinha”.



E o mapa de Clarice? Bom, considerando a data que mais aparece como sendo a verdadeira e o fato de ela dizer sobre si mesma que seu ascendente é aquário, vejamos então no dia 10 de dezembro de 1920 em que horário tínhamos aquário ascendendo em Chechelnyk, Ucrânia. Entre as 10:35 AM e 11:50 AM temos Aquário ascendendo. Nesse espaço de tempo a lua se aplicava em conjunção com o sol, com a lua nova exata sendo depois das 12:00. Ascendente aquário é a imagem blasé que vemos nas lindas fotos de Clarice. É uma frieza e um humanismo muito fortes que concedem ao indivíduo a capacidade de enxergar a vida e as pessoas com muita clareza. É também o desdém pelo óbvio, ou a arte de chocar fazendo uso do óbvio. É estar a frente do seu tempo, é não se importar com opiniões alheias, é uma semi-iconoclastia, de alguém que não vem para destruir, mas que vem para reformar. Independente do horário o planeta Urano em 2° de Peixes cai na casa 1, o que reforça todas essas características. Saturno, o regente tradicional de aquário cai na casa 8 em Virgem(independente do horário para ascendente aquário) o que indica a busca pelo entendimento do que está por trás do que é óbvio, é o interesse pelo mistério, é o fascínio mórbido pelos mistérios da vida e da morte, é também um dos indicadores de interesse para o ocultismo.

Sol e lua estão em 18°Sagitário, e Júpiter está em 18°Virgem, numa quadratura pártil (exata), portanto. Isso costuma significar uma pessoa muito direta, honesta, otimista, exagerada e com muita fé, fé demais neste caso. Mas vemos que saturno está em 24°Virgem, em conjunção com Júpiter e em quadratura com os luminares. Existe uma mistura de tendências antagônicas neste caso, a fé e o ceticismo andando lado a lado, o medo e a angústia de viver convivendo com uma linda filosofia baseada no otimismo, no amor a vida por ela ser o que é. Uma extrema impulsividade, um forte exagero, tudo isso refreado por uma severa autocrítica. Clarice sobre si:

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”



Para a data que estamos usando, mercúrio, a faceta mais conhecida do público de Clarice Lispector, está em 29° Escorpião. É um cérebro penetrante, desconfiado, que mergulha fundo em toda e qualquer questão, que tem um modo incisivo de se expressar, que ofende e injuria com maestria, que é irônico, sarcástico, rancoroso e malicioso. Ao mesmo tempo fala da pessoa que não costuma externar suas opiniões pessoais, suas angústias e intimidades: tende a ser um túmulo sobre si mesmo. Indica o gosto pelo silêncio, o que não impede a pessoa de ser eloqüente. O fato é que nada do que essa pessoa diz é à toa. E Vênus, em 27° de Capricórnio está em sextil com mercúrio. Tudo é dito com um verniz um pouco mais aveludado, de forma aceitável, harmônica, bela artística. Apesar de ser um aspecto comum, esse é um daqueles que constam nos manuais astrológicos do tipo receita-de-bolo como indicador de dons literários. Este caso pelo menos está confirmando.



Vênus em Capricórnio também se refere a profundidade do universo emocional da escritora. Vênus aqui está no mais consciente de todos os signos, naquele que possui a visão mais severa e realista sobre si mesmo, que vê sua própria verdade, sente asco por ela mas ainda é capaz de se aceitar exatamente desse jeito, porque é justamente o signo que trata daquilo que chamamos de tempo. Capricórnio vem de uma longa caminhada e quando chega onda está – no topo, depara-se com um imenso abismo e vem a consciência: então tudo isso foi pra nada... bom, mas já que estamos aqui, façamos o melhor que pudermos disso que é a vida. A pessoa que tem vênus em capricórnio (especialmente no caso de Clarice, que seria uma vênus em trígono com saturno) vê a si mesma com tanto realismo, que no final é incapaz de não se amar, diferente da vênus em virgem que separa de si mesma suas imperfeições e escolhe odiar-se por possuí-las. No trecho abaixo Clarice evidencia sua faceta de Vênus em capricórnio:

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”



Netuno em 13° Leão, em trígono com os luminares e provavelmente em oposição com o Ascendente é o mistério de Clarice, ou melhor, se realmente o for, ele representa o seu mistério. A pessoa que nasce sob um céu que mostra um netuno no ocaso é envolta em neblina e o que ela mostra para as pessoas é um personagem. Também é nebulosa a forma como ela encara as pessoas, netuno nestas condições fala de alguém que fantasia o outro, que não perde tempo vendo-o realisticamente, mas cria-o... parece perfeito para alguém que vive de criar personagens e de imaginá-los...




No “nosso” mapa de Clarice, marte tem grandes chances de estar em conjunção com o ascendente. Ela o tinha em 10° aquário. De qualquer maneira, se Clarice dizia a verdade quando falava no seu ascendente aquariano, ela teria marte no mesmo signo do ascendente, o que convenhamos, já é algo significativo. A pessoa com marte na casa 1 tem iniciativa, é impulsiva, inconseqüente e tende a ser agressiva, sobretudo nas idéias, porque neste caso marte está em um signo aéreo. Fala de uma pessoa muito incisiva com as palavras (confluindo com mercúrio escorpião), alguém que sabe sustentar uma opinião, e alguém que também se sente na obrigação de fazer algo pelo grupo, aliás, acha que todos têm essa obrigação:

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

É interessante notar como saturno em virgem se faz presente em tudo o que ela diz sobre si mesma, sempre com extrema modéstia. Os textos colados aqui eu encontrei no site oficial de Clarice Lispector, e os mesmos foram extraídos do livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice. Bom, como ja deixei claro no início inexistem certezas sobre o nascimento da nossa querida escritora. Estou e valendo daquilo que aparece co maior freqüência (a data) e do que ela fala de si (sou sagitário, escorpião, ascendente aquário), além de haver incerteza quanto ao calendário correto a ser usado(ela nasceu quando a Rússia estava ainda na transição do seu calendário) portanto a dúvida sobre Clarice ainda está no ar. Algum dia será que surgirá alguem capaz de decifrar tamanho enigma? acho que no dia que ela for decifrada seu nome se apaga da história. É como se não pudesse existir Clarice Lispector sem o mistério, que graça teria?

Comentários
10 Comentários

10 comentários:

amorimengmat on 13 de março de 2009 10:44 disse...

Ótimo texto sobre Clarice!!!

Madalena on 13 de março de 2009 16:06 disse...

"Grande" analise para quem soube ser "grande" em tudo.
Ela teve o dom de ver pelo lado do avesso , via a alma ...
Vc soube colocar este avesso muito bem...

Fernanda Freire disse...

Nossa amico... Maravilhoso post, fiquei emocionada. Tinha certeza que havia algo de capricórnio nela. E escorpião. Eu comecei a usar delineador nos olhos aos 12 anos por causa de uma foto dela que vi num livro do colégio... achei a coisa mais glamurosa do mundo. Desde então uso religiosamente. Tem um trecho dela que tem martelado muito a minha cabeça nos últimos dias, vc vai entender porque. É esse:

"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."

Angela... on 15 de março de 2009 20:07 disse...

Elias, parabéns por interpretar tão acertadamente alguém que diz de si própria: "Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo (...)".
Concordo com ela - e com você - quando diz que "Entender é sempre limitado", validando a "verdade inventada"...
Isso é ser único e livre de pensamento.

Christiane Forcinito Ashlay Silva de Oliveira on 21 de março de 2009 20:37 disse...

No trecho abaixo Clarice evidencia sua faceta de Vênus em capricórnio:

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”


Elias... Nossa... Adorei!
Eu tenho vênus em capricórnio... Isso foi extremamente profundo, até copiei esta frase!

Christiane Forcinito Ashlay Silva de Oliveira on 21 de março de 2009 20:45 disse...

Elias, inclusive coloquei no meu blog e vou refletir nisso...

Abraço!

jhonatan on 18 de agosto de 2010 17:02 disse...

Minha frase favorita dela é esta:

“Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

Clarice lispector a pequena grande mulher...

Dimitri disse...

Sensacional, Elias, você chegou a apresentar essa pesquisa/biografia como palestra? Parabéns, abração!

Anônimo disse...

Você poderia fazer o mapa astral de lygia fagundes telles?

Thata on 23 de junho de 2014 18:47 disse...

Oi Elias,
Andei lendo seu blogue... e... o " 'nosso' mapa de Clarice" me espantou, pelas semelhanças com meu mapa. Não exatamente pelo Sol em Sagitário e Ascendente em Aquário, mas no Saturno em Virgem na Casa 8, no Mercúrio em Escorpião no Meio Céu, na Vênus em Capricórnio, no Júpiter em Virgem. Uau. Então, vem uma diferença visceral: daria tudo pra ter a Lua em outro signo, mas a minha está lá, cravada em Câncer (entre as Casas 5 e 6); em oposição por casa a Vênus, em trígono com Mercúrio - conjunto a Urano em Escorpião na Casa 10 (Urano que me traz, ao contrário do que sugere a Casa 10 em Escorpião, uma expressão de pensamentos e sentimentos, no mínimo, "não tão contida") ; em quincunce com Ascendente em Aquário, em quincunce com Sol em Sagitário e com Netuno (conjunto ao Sol, mas na Casa 11). Meu Saturno em Virgem quadra Netuno, mas não Sol. Júpiter em Virgem conjunto a Marte em Virgem na Casa 7 - oposto ao belo Marte na Casa 1 de Clarice - ambos quadrando o Sol em Sagitário. (Fortuna em Virgem na Casa 8, Nodo Norte em Virgem na Casa 7, mas o stellium em Virgem contrasta com uma desorganização quase... . Só para constar, o contrário do que se deduziria de um stellium em Virgem). Estranho usar tantos pronomes em 1a pessoa; e escrever este comentário (produto do espanto - nem "para o bem", nem "para o mal", só espanto).
Obrigada pela oportunidade de reflexão, espero que o comentário lhe seja útil em seu trabalho.
Abraços

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